Gelo marinho ártico chega à menor extensão já vista

da Associated Press

O gelo marinho do Ártico atingiu na última sexta-feira sua menor extensão já registrada. O alerta foi dado por cientistas do Centro Nacional de Dados sobre Gelo e Neve dos EUA.

As medições feitas com satélite mostram que, no dia 17 de agosto, o gelo marinho no oceano Ártico atingiu a extensão de 5,26 milhões de quilômetros quadrados. O valor é um pouco mais baixo que o mínimo registrado em 21 de setembro de 2005, 5,32 milhões de quilômetros quadrados.

“Hoje é um dia histórico”, disse Mark Serreze, cientista-sênior do centro de pesquisas americano. “É a menor extensão de gelo que já observamos no registro de satélite, e ainda temos mais um mês de degelo neste ano”, afirmou.

O Ártico é a região do planeta que mais tem sentido os efeitos do aquecimento global. O fenômeno é causado por uma aceleração do efeito estufa (o aprisionamento do calor irradiado pela Terra por uma capa de gases na atmosfera), provocada, por sua vez, pela emissão de gás carbônico (CO2) por atividades humanas –em especial a queima de combustíveis fósseis.

O pólo Norte aquece mais rápido que o restante do planeta, e tem perdido 2,7% de seu gelo marinho permanente por década, segundo o IPCC (o painel do clima das Nações Unidas).

O gelo marinho ajuda a manter o equilíbrio térmico do Ártico, ao refletir 80% da luz do Sol. Quanto menos gelo marinho, mais radiação (até 90%) é absorvida pelo oceano, que esquenta –elevando mais ainda o termômetro na região.

Em junho e julho, verão no hemisfério Norte, o céu esteve muito limpo, o que lançou uma quantidade extraordinariamente alta de energia solar sobre as águas do Ártico. Mas, segundo Serreze, não é possível explicar o degelo deste ano só por fatores naturais.

O degelo é mais rápido do que o previsto pelos cientistas. O relatório do IPCC diz que o Ártico poderia ficar totalmente sem gelo em 2070 a 2100. Mas, segundo Serreze, à taxa atual, o derretimento total do oceano Ártico poderia vir em 2030.

20/08/200710h31 Folha Online

Publicado em:  on Agosto 20, 2007 at 7:06 pm Deixe um comentário

Livro escancara divórcio fatal entre os humanos e o planeta

EDUARDO GERAQUE
da Folha de S.Paulo

Apesar de ter, talvez, um título errado e algumas páginas arrastadas demais, o livro “O Mundo Sem Nós”, do professor-jornalista americano Allan Weisman, que acaba de chegar ao mercado brasileiro pela Editora Planeta, tem pelo menos um ponto bastante relevante.

Na verdade, o leitor que resolver atravessar as 382 páginas da obra deveria fazer isso com a atenção redobrada em um outro livro que também está ali, diante dos seus olhos, mas que não foi o objetivo principal do escritor americano.

Como sem presente não existe futuro, antes de pensar no legado humano quando, por ventura, o Homo sapiens desaparecer de vez, é preciso antes de mais nada refletir no mundo com esses seres vivos sobre ele.

“O mundo conosco” poderia ser o título desse lado B da obra do jornalista americano, que também tem uma visão bem americana de mundo. Em um capítulo sobre evolução humana, por exemplo, teorias acalentadas por cientistas brasileiros –para quem a ocupação das Américas foi bem mais antiga do que se imagina– foram solenemente ignoradas.

E, nesse caminho oculto do livro, os exemplos que aparecem são espetaculares e trágicos, apesar de Weisman -que além de viajar pelo mundo atrás de boas histórias também leciona na Universidade do Arizona- tentar dar um final menos apocalíptico a sua obra.

No livro –que não é de ficção científica mas sim de não-ficção, baseado em um extenso conjunto de fontes de vários segmentos– o jornalista descreve, por exemplo, como seriam os dias seguintes de Nova York (Estados Unidos) sem os seus moradores. O início do fim da cidade não demoraria quase nada, segundo o autor.

Em 48 horas, os túneis do metrô já estariam totalmente inundados. Isso só não ocorre normalmente hoje porque funcionários e bombas d’água estão sempre trabalhando. (Excepcionalmente, as chuvas desta última semana conseguiram vencer os esforços humanos.)

Os charmosos edifícios que formam hoje o “skyline” de Manhattan, estariam quase todos em ruínas em quatro anos por causa do ciclo congelamento-descongelamento. A queda de um deles teria o mesmo efeito que uma árvore caindo na floresta. Clareiras seriam abertas na selva de pedra.

Em 500 anos, a floresta estaria de volta. É mesmo! As grandes cidades, como também é o caso de São Paulo, Rio de Janeiro e tantas outras no Brasil e no mundo, não estiveram onde estão desde o início.

Plásticos invisíveis

No mar, um outro rastro humano impensável para a maioria dos terráqueos foi descoberto por um grupo de pesquisadores ingleses, da Universidade de Plymouth. Há algum tempo eles estavam tentando saber o que era pequenos grânulos estranhos que apareciam sob os seus microscópios.

A história, segundo o escritor americano, começou mais ou menos assim:

O pesquisador Mark Browne, certo dia, resolveu abrir o armário de uma laboratório onde mulheres guardavam seus produtos de beleza. Estavam lá cremes e detergentes para as mãos. Todos eram considerados esfoliantes, mas nem todos eram 100% naturais.

Isso que significa dizer, segundo Browne, que enquanto alguns fabricantes usavam sementes de uva ou sal marinho para esfoliar a pele, outros partiram para o plástico.

“Grânulos microfinos de polietileno” disse o pesquisador. Isso mesmo, Browne descobriu o que eram aqueles elementos estranhos. O ciclo se fechou.

Esses produtos, portanto, contém plásticos que vão diretamente para o ralo, para a rede de esgotos, para os rios e os oceanos. E, claro, são engolidos pelos seres marinhos.

O cientista, preocupado com o presente mas olhando para o futuro, chega a se arrepiar. Para ele, não existe dúvida. Mesmo que a produção de plásticos acabasse hoje, a cadeia marinha vai precisar “lidar” com esses grânulos de plásticos por milhares de anos.

Ao passear por terras e mares, Weisman acaba compondo um conjunto quase cansativo de exemplos que provam que a espécie humana já alterou o curso da Terra. Talvez, grande parte dos leitores do livro, nem achem isso necessariamente ruim. Afinal, a vida (e o consumo “moderno”) deve seguir.

O mais interessante, talvez, para aqueles que sabem que a espécie humana é que vive sobre o planeta e não o contrário, é perceber que depois de tudo acabar, mesmo com uma série de cicatrizes, o planeta e o universo vão conseguir seguir em frente sem muitos problemas.

E apenas algumas estátuas de bronze, além do lixo atômico, por exemplo, ficarão para ser descobertas em um futuro muito, mas muito, distante.

LIVRO – “O Mundo Sem Nós”
Alan Weisman; ed. Planeta, 382 págs., R$ 44,90

12/08/200709h19 Folha Online

Publicado em:  on Agosto 13, 2007 at 11:21 am Deixe um comentário